quinta-feira, 12 de abril de 2012

Orgia Enogastronômica

Escrevi a cartinha a seguir pra ajudar o trabalho de uma amiga sobre enoturismo, mas acho que faz sentido publicar aqui. Ainda mais agora que estou planejando um clube do vinho com o povo da SD no facebook.

Orgia Enogastronômica

Participei de minha primeira orgia enogastronômica em novembro de 2010. Não se espante com o termo utilizado, caro leitor. Quando eu terminar meu relato, você verá que ele nada teve de exagerado. Se minha empreitada for bem sucedida, você também desejará se ver em meio a esse mundo de prazeres gustativos.

Fui iniciado através de um Clube do Vinho que eu frequentava, e sobre o qual tomei conhecimento pelo já habitual SPAM. Depois de alguns meses, surgiu a idéia de realizarmos uma viagem para Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. No fim de semana escolhido, a cidade seria tomada pela 14ª Noite de Gala do Vinho Nacional no Dall’Onder Grande Hotel. O evento era caro, devo admitir, mas diante de todas as possibilidades que aqueles três dias nos reservavam, a quantia pedida parecia não mais que uma esmola.

O grupo se encontrou já no aeroporto do Galeão na sexta-feira a tarde. Muitos ainda não se conheciam, mas os gostos e as expectativas em comum criaram um entrosamento quase que imediato. Desembarcando em Porto Alegre, fomos recebidos pelo guia da Terra Bela Turismo, que havia organizado nossa viagem, e levados ao ônibus que nos transportaria até Bento Gonçalves. Aí sim a viagem começou de verdade...



Durante o trajeto, enquanto o guia animava o pessoal e contava algumas curiosidades sobre o evento, sobre os vinhos nacionais e sobre a cidade que visitaríamos, abriram a primeira garrafa de espumante. A primeira de incontáveis garrafas, devo ressaltar. Chegamos ao hotel e, enquanto o guia fazia nosso check-in, mais espumante foi servido! Algumas fotografias e muitas taças depois, finalmente subimos para nossos quartos.

Como ainda era tarde e o evento principal só aconteceria a noite, tivemos algumas horas para conhecer a cidade, fazer compras, visitar as dependências do hotel... Esse tempo se mostrou essencial, pois nos outros dias as atividades exigiriam todo nosso tempo disponível. Dei uma volta rápida pela cidade, mas optei por aproveitar meu tempo tomando um vinho à beira da piscina com o líder do clube, sua namorada e uma amiga que dividia o quarto comigo.

Pra fechar o primeiro dia em grande estilo, todos descemos em trajes de gala para o salão principal. Na verdade, eram dois salões enormes, com diversos estandes de vinho. Cada um de uma vinícola diferente e cada um com seus melhores vinhos à disposição do público. Era só escolher e estender a taça para degustar os melhores vinhos do Brasil. E, como nem só de vinho vive o homem, a produção do evento convidou um chefe de um dos melhores restaurantes de São Paulo para nos apresentar a culinária italiana através das regiões do país. Faço aqui um parêntese para confessar que não achei os pratos à altura do currículo, nem os vinhos à altura do evento. O ponto alto da noite foi o show com os Golden Boys, banda da velha guarda que deixava transparecer no palco o orgulho de quem revivia seus dias de glória.

Na manhã seguinte, acordamos e nos apressamos para visitar uma tanoaria (o local onde se fabricam as barricas de envelhecimento dos vinhos. Vimos todo o processo: das tábuas que chegam ao Brasil já cortadas a uma máquina gigantesca que empurra anéis de metal para finalizar ao barril, passando pela tosta que dá sabores diversos ao vinho.

Da Tanoaria, seguimos para a Casa Valduga, onde participamos de uma degustação especial com o dono da vinícola. Isso tudo, claro, depois de visitar suas caves subterrâneas, suas plantações e a área de empacotamento. Os vinhos foram todos muito bons, mas o que veio a seguir me fez dar pouca importância a eles: no restaurante da vinícola, novamente em uma área especialmente reservada para nós, experimentamos um almoço harmonizado com vinhos especiais da casa. Uma combinação mais gostosa que a outra. Fiz minha primeira sabrage neste dia. O dono da vinícola me instruiu a romper a parte superior da garrafa de espumante utilizando um sabre. Não é cortar ou retirar a tampa; a pressão interna da garrafa é tão grande que o menor impacto faz a garrafa “explodir” e lançar a parte que segura a rolha a alguns metros de distância.

Um descanso rápido no hotel nos preparou para a visita seguinte. Chegamos à fábrica da Chandon ao pôr-do-sol e fomos direto para uma palestra com o dono. Talvez o descanso tenha sido rápido demais, pois alguns foram flagrados cochilando enquanto o senhor falava e tentava nos apresentar seus vinhos. O ponto alto desta visita foi ver a extração do espumante de um grande tonel. Parecia chope e o gosto não era tão bom quanto o vinho pronto, mas...

Último dia de viagem e ainda tantos lugares para visitar... Após o café da manhã, fomos a uma queijaria localizada na beira da estrada. O lugar tinha uma fonte de vinho e o dono fez questão de nos dar uma prova de todos os queijos que ele tinha disponíveis. E não eram poucos.

Rumamos direto para a Miolo, a última vinícola a ser visitada. Eles têm na entrada uma amostra de todos os tipos de uvas que utilizam, o que me pareceu bem interessante. Visitamos novamente o local de envelhecimento e partimos pra mais uma degustação, desta vez no que parecia um laboratório de ciências dos tempos de colégio – largas bancadas posicionadas em degraus e um quadro branco na frente. Passamos na loja de souvenir e seguimos viagem.

Se você pensa que acabou, caro leitor, está muito enganado. Terminamos nossa viagem visitando uma legítima casa de colonos, com restaurante embaixo da casa e tudo. E não exagero em dizer: a comida servida ali dava de dez a zero na comida feita pelo chefe italiano. Tudo que nos foi servido era produto do trabalho da senhora que nos servia: dos legumes à sobremesa, passando pelas frutas, pelos ovos, pela carne e, claro, pelo vinho.

Pena que essa noite de gala só ocorre uma vez por ano. E ainda tem gente que fica ansioso pelo natal...