quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Pouco acima daquela alvíssima coluna

Tive que roubar do Sensual Ascese!



Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou, vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser; outros
— hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor . . .
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...


Hermes Fontes (1888-1930)

Um comentário:

  1. Muito Bom !
    O texto, a cada linha, nos remete imediatamente a uma viagem incrível, um arco-íris de imaginação.
    Aguçador, Sensual e Inspirador.
    Abraços Dionisíacos,
    Lauro

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