domingo, 25 de setembro de 2011

Inocência e Fé

Não tem muito tempo, eu estava conversando com uma conhecida e o assunto chegou a religião. Eu comentei minha teoria sobre os demônios, de que eles são basicamente entidades que têm interesse em fazer os humanos seguirem seus instintos. Ela olhou pra mim com um ar de ternura meio humilhante e disse algo como "eu te perdoo, porque isso que você disse foi muito inocente". Perguntei o que eram os demônios pra ela então e ela disse que são, como o que eu disse, mas que eles também são... maus.

¬¬

Tentei continuar e perguntei o que mais, mas ela não soube explicar. Falei que, tirando a maldade, que é uma questão de interpretação, o que restava era o lance do instinto, que eu acho ótimo. Ela disse que quando eu lesse a bíblia eu iria entender. Me senti um merda, mas eu realmente não li muito mais do que Gênesis, que não menciona demônios explicitamente, então não havia como continuar a discussão.

Mas enquanto prossigo nos meus estudos, continuei refletindo sobre o assunto e cheguei à conclusão de que o comentário sobre minha inocência não poderia ser menos válido. Ainda mais vindo dela, que se orgulha de citar que "a fé é ter certeza sem precisar de comprovação" (ou alguma coisa nesse sentido). E com isso eu concordo. A fé é cega em sua essência. As pessoas podem racionalizar depois pra tentar justificar a própria fé, mas o fato é que quanto mais racional é o pensamento, menos espaço sobra pra fé.


Engraçado é que as pessoas sempre têm suas próprias soluções pras encruzilhadas da fé. A dessa conhecida é simples e eficiente: a bíblia foi inspirada por deus, mas escrita por homens e, portanto, pode possuir falhas. Mas como dizer onde está a falha? Essa pergunta precisa necessariamente de duas respostas: fé e conveniência. Fé para acreditar que alguma coisa ali é verdade em vez de questionar logo a primeira frase da bíblia ou a existência de deus. Conveniência pra, em caso de contradição, entre duas partes da bíblia ou entre a bíblia e suas convicções pessoais, você admitir a falha sem peso na consciência. Exemplo: se você é contra a escravidão, é só dizer que as passagens da bíblia que endossam essa prática foram um adendo feito pelos homens que a escreveram e que não correspondem à mensagem de deus.

O que me revolta nem é tanto essa edição da religião. Isso acontece também em relação à ideologia política ou pensamento filosófico. Ninguém consegue ter exatamente a mesma interpretação sobre uma ideia, a não ser que estejamos falando de postulados científicos - e ainda assim existem diferentes teorias pra explicar certos fenômenos. É a graça (ou pesadelo) da comunicação: eu penso uma coisa, não consigo falar EXATAMENTE o que eu pensei e você não conseguirá nunca entender EXATAMENTE o que eu falei, muito menos o que eu pensei. O que me revolta é justamente quando pessoas assim se atrevem a se considerar mais certas do que outras. Se você segue uma religião ao pé da letra, você é maluco, mas pelo menos você está acreditando em algo maior que você e tem credibilidade pra debater. Se você segue sua própria versão convenientemente editada da bíblia, do alcorão ou do Tao Te Ching, ela começa e termina em você, e você não tem a envergadura moral pra entrar em debate nenhum. Sua opinião vai mudar conforme seus interesses e, no fundo, você sabe disso.

Voltando ao meu debate sobre inocência, foi justamente a tentativa de não ser inocente que me fez chegar à minha teoria sobre demônios. Todas as representações mostram eles como seres que, das duas uma, ou são perversos em todos os sentidos ou são seres com interesses próprios, diferentes dos interesses cristãos. Supondo que demônios realmente existam, porque devemos basear nossa opinião sobre eles no que está escrito num livro que, supostamente, é a palavra do seu inimigo? É como acreditar que comunistas são maus porque leu na Veja ou que Dionísio é mau porque o oráculo de Apolo teve uma revelação e te contou.


Foi ao tentar me livrar dessa lógica maniqueísta (deus é bom e o diabo é mau) e tautológica (a bíblia diz a verdade porque está escrito nela que ela é a palavra de deus e que tudo que estiver nela é verdade) que eu cheguei à minha teoria sobre os demônios. Confesso (e repito) que ainda não estudei muito sobre o assunto, mas eis o que eu lembro agora que é dito sobre Lúcifer na bíblia ou por pessoas que acreditam nela.

  1. Ele convenceu Eva a provar o fruto proibido. Eis o que a serpente disso à mulher (Gen. 3:4): "Positivamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no mesmo dia em que comerdes dele, forçosamente se abridão os vossos olhos e forçosamente sereis como Deus, sabendo o que é bom e o que é mau." Em outras palavras, a serpente abriu os olhos da humanidade e permitiu que ela abandonasse a subserviência a deus, decidindo por conta própria o que é bom e o que é mau. Detalhe: Adão e Eva ainda viveram uns 900 anos então, ou deus mentiu sobre eles morrerem ou mudou de ideia. Há quem diga que teríamos vida eterna se não fosse por isso, mas quem é que liga pra superpopulação, né?
  2. Fudeu com a vida de Jó. Pra resumir a história, Jó era um cara muito fiel a deus e Satanás tinha a teoria de que ele só era assim porque deus o abençoava em todos os sentidos. Deus deu então permissão pra que Satanás tirasse TUDO de Jó e ainda o deixasse doente. Jó continuou fiel e deus deu tudo em dobro pra ele. OK. Mas a questão é que Satanás não fez isso por maldade, mas pra provar um ponto. Se fosse por maldade mesmo, ele teria feito com qualquer um. Isso prova que ele não tem escrúpulos, mas não prova que ele é mau. Detalhe: deus conscientemente DEU PERMISSÃO pra que Satanás desgraçasse o pobre do Jó.
  3. Se revoltou contra deus. Diz-se que Lúcifer é um anjo caído da ordem dos querubins. Segundo a Igreja Católica, ele foi expulso do céu por se recusar a servir ao Homem. Em outras palavras, ele foi punido por exercer o livre arbítrio de que tanto nos orgulhamos. Tudo bem que dizem que teve revolta e guerra entre os anjos, mas qual é o ditador que não considera qualquer insubordinação como uma afronta pessoal e incitação ao caos?
É claro que eu estou contando os fatos da forma que eu acho mais conveniente, mas meu objetivo aqui é claramente oferecer outro ponto de vista e defender os demônios. Quem quiser pesquisar pesquise, quem quiser discordar discorde. O importante é ficar claro o quanto é inocente acreditarmos que demônios são maus simplesmente porque lemos isso no livro escrito pelo inimigo deles. Ou em qualquer outra "verdade" bíblica.

E você? No que acredita?

5 comentários:

  1. Eu acredito no URI. Will ja deve conhecer, mas pra quem nao sabe, o Unicórnio Rosa Invisível é a única religiao que se baseia tanto na fé quanto na lógica. Sabemos que ele é rosa porque temos fé, e pela lógica sabemos que ele é invisível porque nao podemos ver.

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  2. Pra quem quiser conhecer mais sobre o Unicórnio Rosa Invisível, é só dar uma olhada nesse post aqui: http://sociedadedionisiaca.blogspot.com/2010/08/ateu-descobre-que-estava-errado.html

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  3. Gostaria que você desenvolvesse mais esse trecho: "Isso prova que ele não tem escrúpulos, mas não prova que ele é mau."

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  4. Na história de Jó, Satanás fode com a vida dele. Acaba com o gado do cara, faz assassinarem seus ajudantes, mata seus filhos e o irmão e ainda deixa o Jó com um furúnculo no corpo todo. "Muito malvado", alguém pode dizer, mas eu digo que não. Ele fez tudo isso pra provar que Jó não seria fiel a deus se tivesse na merda. Pra mim ele só tem uma moral diferente da nossa. E faz muito sentido, já que ele é um anjo imortal e tudo mais.

    O empresário tá sendo malvado quando manda demolir os barracos construídos ilegalmente numa área que ele acabou de comprar pra fazer um shopping? Não. Ele simplesmente não liga.

    A pessoa que espalha ratoeiras pela sua casa pra matar ratos está sendo má por tirar a vida dessas pobres criaturas de modo tão cruel? Não, ela só tá preocupada com outras coisas e acha que a vida do rato não é importante.

    Acho que essa história envolve a mesma questão. Satanás não tava nem aí pro sofrimento do Jó. Nem queria que ele sofresse nem que ele ficasse feliz. Mas ele precisava fazer o cara sofrer pra tentar provar seu ponto.

    É escroto, claro. A gente pode não gostar, mas não dá pra dizer que ele é mau por ter feito isso.

    A história está no comecinho do livro de Jó, capítulos 1 e 2. É chato, mas vale uma lida.

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  5. Minha teoria sobre demônios é simples:
    inexistentes

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