quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fazendo História


por Marcel Albuquerque
Eu nasci aos sete anos. Pro mundo, claro. Minha memória surgiu nessa época, ainda que os neurologistas digam que ela é anterior e que eu tenha vagas lembranças de muitos fatos anteriores. Sete, exatamente sete. E não aleatoriamente ou por qualquer relação biológica. Nasci em 1987, mais 7 dá 1994. Muita coisa pra passar batida: Senna morreu, o Brasil foi Tetra e começou o Real. Antes disso, eu levava alguns milhares de cruzeiros para a mui esperada merenda. Quantos? Não sei, aí eu não lembro.

Desses marcos temporais, tão carimbados na mídia, nos bares, nas cozinhas e escritórios, o mais cotidiano foi o tal do Real. Todo aquele papo de igualar o peso com o dólar parecia muito sedutor. O povo em geral não sabia muito bem do que se tratava, mas soava bem. Eu mesmo não entendia disso direito e até hoje não sou um expert em Economia, mas algumas comparações empíricas são cabíveis. Sabe o Big Mac que hoje você paga o preço de um almoço? Então... era R$ 4,50 – isso mesmo, molecada. E, de acordo com a propaganda eleitoral do criador desse plano, o famigerado e então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, com um real se fazia um bolo. Com direito a jujuba. Viver era mais fácil?

Pra mim, foi quando se tornou mais difícil. Questão subjetiva, do coração: meu pai sofreu seu primeiro infarto. A grana ainda era razoável, ele ganhava por volta de 2 mengueles por mês. Mas o tempo passou, o mundo girou, o Real mostrou que criou expectativas falsas. Em 2008, Seu Evandro, pai do Marcel, morreu por problemas cardíacos. A gente já não tinha tanta condição de prover da sua saúde. Sabe por quê? O salário dele não virou muito além daqueles 2 mil que falei 'inda agora.

Dizem por aí que a pátria amada vive condições melhores. Não serei completamente do contra, reconheço alguns avanços em termos de pauta social, mas ao passo que o Brasil ficou mais rico,esqueceram de mandar nossa parcela aqui pra casa.

Seu Evandro, tão anônimo, é um exemplo em meio a milhares, milhões. Pra mim, único. O cara que me ensinou a gostar de política, em meio ao suor que gotejava pelas quinas das mesas lá de casa, filhas da preocupação com as contas, nada amigas das palpitações do coração. Fez isso às avessas, porque discordávamos de tudo, mas herdei o desejo de encarar o que considero errado – mesmo que nossas concepções quanto a isso fossem tão antagônicas. Eu sei, pra você ele é apenas uma estatística.

“A classe média aumentou”. Essa frase ecoa desde artigos científicos a discursos eloquentes em palanques. Mas, na real, se eu posso comprar hoje uma geladeira sem grandes esforços é porque cresceu o crediário, e não os salários. Tudo aquilo que demanda pagamento à vista ficou ainda mais caro. Sempre me pergunto se a emergência do Brasil se deveu à capacidade do governo Lula ou ao cenário global que era favorável.

Crescemos com muitos pesares. Apesar da concentração de renda. Apesar da corrupção. Apesar da violência. Apesar dos problemas “ambientais” - isso mesmo, com aspas, pois o mundo sobreviveria muito bem sem a gente. Pra completar, a nossa Constituição, carta magna regente de nossas leis, permite que a desigualdade seja reiterada e comece seu ciclo onde deveria cessar. Deputados, escolhidos por você para comandarem o país, aumentam seus salários em 62%. Repito, em letras garrafais: SESSENTA E DOIS PORCENTO. Como se não bastassem as regalias de todas as ordens, vales criados por quem não vale lá muita coisa e a diminuta recompensa de 16mil a cada 30 dias. E pra você? Pra você, não muito mais que um BigMac.
Passeatas não tem o poder deliberativo macro-político, mas botam o dedo na ferida. Explicitam o óbvio, o que todo mundo sabe. Neste caso, que esse reajuste é indigno. É claro que você não vai mudar o cenário nacional com isso. Mas é inocência demais esperar pra alterar tudo de uma vez. Por isso, tenho uma proposta.

Se você é do Rio, amanhã é o dia. Haverá uma passeata, saindo da Central do Brasil até a Cinelândia, às 15:30. A quem puder, vá, sua presença é importantíssima. Mas caso você seja de outro canto do país, não tem problema, se organize como possível.

Se você acha que é insanidade, embebido de apatia política, filhote da ressaca do fim da ditadura, desde quando pouco lutou-se, lembre-se dos Caras Pintadas. Não faça do posicionamento político algo antiquado, da história um passado longínquo, inquilina de livros didáticos. Saiba, sobretudo, que a utopia vive no horizonte. Por mais que se caminhe, nunca se alcança. Afinal, ela serve para que nunca deixemos de caminhar.

Quem sabe, você está prestes a construir algo que alguém jamais esquecerá.

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Um comentário:

  1. "Quem sabe, você está prestes a construir algo que alguém jamais esquecerá."

    Sabe? às vezes eu fico puta com o conformismo da minha geração...parece que ninguém tá aí pra nada...lógico q só reclamar disso, falar que nasceu na época errada e não fazer nada é também conformismo da minha parte...

    Hoje em dia, vc tem q ser mto corajoso pra dar a cara a tapa e fazer algo, pq é difícil ser levado à sério...

    Achei foda! Se eu estivesse no Rio, iria com certeza...e espero que aqui em Sampa a gnt consiga fazer algo também...tá acontecendo um monte de protesto por causa do aumento do preço do ônibus, acho q a galera tá um pouco menos apática!

    Bora!
    Júlia

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