sábado, 13 de março de 2010

"a narrativa mais impura já escrita" #2

hoje vou presenteá-los com mais dois contos do livro Os 120 Dias de Sodoma ou A Escola da Libertinagem. se você não leu o primeiro post, contextualize-se lendo a parte 1. a partir de agora, postarei os contos às quartas e sábados, e não somente aos sábados, como havia dito no post anterior.

O CONTEÚDO A SEGUIR, ASSIM COMO O QUE VIRÁ NOS PRÓXIMOS POSTS, PODE CONTER (E PROVAVELMENTE CONTERÁ) ELEMENTOS DE CARÁTER IMORAL E/OU REPUGNANTE.

" 'Algum tempo depois dessa, fui sozinha à casa de outro libertino', disse a Duclos, cuja mania, talvez mais humilhante, não era, entretanto, tão sombria. Recebeu-me num salão cujo parquete estava ornamentado por um tapete muito lindo, mandou que me despisse, e ficasse de quatro: 'Vamos ver', disse, falando de dois grandes dinamarqueses que tinha a seus lados, 'vamos ver quem, meus cães ou tu, será mais rápido; vai buscar!' E, ao mesmo tempo, lançou uma grande castanha assada ao chão, falando-me como a um animal: 'Traga, traga!'. Corro de quatro atrás da castanha, para entrar no espiríto de sua fantasia e de trazê-la, mas os dois cães, partindo depois de mim, logo tomara a dianteira; apanharam a castanha e levaram-na de volta ao seu dono. 'Sois francamente desajeitada', disse-me, então, o dono, 'estaríeis com medo que meu cães vos comesse? Não temais nada, não vos farão mal nenhum, mas, interiormente, caçoam de vós quando vos vêem menos hábil que ele. Vamos, vossa revanche... traga!'. Nova castanha jogada, e nova vitória dos cães sobre mim.  O jogo acabou durando duas horas, durante as quais apenas tive a habilidade de apanhar a castanha uma única vez, e levá-la na boca àquele que a jogara. Mas que eu triunfasse ou não, nunca esse animais, adestrados para esse jogo, me fizeram algum mal; pareciam, pelo contrário, brincar e divertir-se comigo como se eu fosse da sua espécie. 'Vamos', disse o dono, 'pronto, já trabalharam bastante; é preciso comer'. Ele tocou uma campainha, um serviçal de confiança entrou. 'Traga de comer às minhas feras', disse. Na hora, o serviçal deixou no chão uma gamela de ébano cheia de uma espécie de picadinho de carne muito delicado. 'Vamos', disse-me, 'janta com meus cães, e trada de não deixá-los serem tão ágeis na refeição como foram na corrida.'. Não havia nada a se responder, precisei obedecer, e, ainda de quatro, pus minha cabeça na gamela, e como tudo estava muito limpo e muito bom, comecei a pastar com os cães que, muito educadamente, me deixaram minha parte, sem a menor disputa. Este era o momento da crise de nosso libertino: a humilhação, o rebaixamento ao qual reduzia uma mulher aquecia incrivelmente seus espíritos: 'Que bugra!', disse então, masturbando-se, 'que safada, está comendo com meus cães! Eis como seria preciso tratar todas as mulheres, e se assim o fizessem, elas não seriam tão impertinentes; são animais domésticos como esses cães, que razão teríamos para tratá-las de outro modo que este? Ah!, safada, ah!, puta!', exclamou ele, então, avançando e soltando sua porra em cima do meu traseiro; 'Ah!, bugra, portanto, fiz-te comer com meus cães!' Foi tudo; nosso homem desapareceu, vesti-me prontamente, e encontrei dois luíses no meu casaco."

" 'Pouco depois', continuou Duclos, 'vimos chegar no harém uma moça de aproximadamente trinta anos, bastante bonita, mas ruiva como Judas. Primeiro, acreditamos que fosse uma nova companheira, mas ela logo nos desenganou ao nos dizer que só vinha para um encontro. O homem a quem se destinava essa nova heroína logo chegou por seu lado. Era um financista bastante bem-apessoado, e a singularidade de seu gosto, uma vez que era a ele que se destinava uma moça que, provavelmente, nenhum outro quereria, esse singularidade, dizia eu, me deu a maior vontade de ir observá-los. Mal ficaram no mesmo aposento, a moça ficou nuazinha e nos mostrou um corpo muito branco e rechonchudo. 'Vamos, pula, pula!', disse-lhe o financista, 'vai aquecendo, sabes muito bem que quero que sue'. E eis a ruiva dando cambalhotas, correndo pelo aposento, pulando feito cabrita, e nosso homem olhando-a enquanto se masturbava, e tudo isto sem que eu sequer pudesse adivinhar o intuito da aventura. Quando a criatura estava suando em bica, ela se aproximou do libertino, levantou um braço e lhe fez cheira sua axila de onde o suor corria por todos os poros. 'Ah!, isto, isto!' disse nosso homem ao farejar com ardor esse braço todo melado, debaixo de seu nariz, 'que cheiro, como me arrebata!' A seguir, ajoelhou-se diante dela, cheirou-a e, do mesmo modo, aspirou sua vagina e seu cu; mas sempre voltava às axilas, seja porque essa parte o deleitava muito mais, seja porque nela encontrava mais perfume; era sempre nesta parte que sua boca e seu nariz voltavam com maior afã. Finalmente, um pau bastante comprido, pau que chacoalhava vigorosamente havia mais de uma hora, achou por bem erguer o nariz. A moça se posicionou, o financista veio encaixar-lhe o pássaro sob a axila por trás, ela apertou o braço, formando, ao que me parece, um lugar muito estreito com aquele local. Enquanto isto, pela posição, ele gozava da vista e do cheiro da outra axila; apossando-se dela, lá enfiou seu focinho inteiro e esporrou lambendo, devorando essa parte que lhe dava tanto prazer.' 'E era necessário', perguntou o Bispo, 'que essa criatura fosse absolutamente ruiva?' 'Absolutamente', disse Duclos, 'Como sabeis, Monsenhor, essas mulheres tem nesse parte um aroma infinitamente mais violento, e o sentido do olfato era sem dúvida aquele que, uma vez excitado por coisas fortes, melhor despertava nele os órgãos do prazer.' 'Que seja', disse o Bispo, 'mas parece-me, por Deus, que teria preferido cheira a bunda daquela mulher a farejá-la debaixo do braço'. 'Ah, ah!', disse Curval, 'ambos tem muitos encantos, e garanto-vos que se houvésseis provado saberíeis o quanto são deliciosos.' "

27 comentários:

  1. Gente, horrível demais o primeiro conto. O segundo é bizarro, apesar de não ser tão repgnante quanto o primeiro.
    Fico imaginando que quem gosta de apanhar de maneira violenta durante o ato sexual sente prazer em ser humilhado.

    Eu não acho nada normal uma pessoa se submeter a isso. Sinceramente.
    Aliás, por causa de coisas assim que Sade escreve é que o tomavam como louco. Faz sentido.

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  2. não acha normal? e o que você entende por normal?

    eu não conheço o desenvolvimento histórico dos fetiches, mas seja por influência do Sade ou não, esse fetiche, por exemplo, que se chama dog play, se tornou muito comum (comum no sentido em que existem milhões de pessoas no mundo que o praticam).. daí ou você acha que todas essas pessoas são loucas ou você pensa que é apenas um gosto, como tantos outros..

    não acho que "se submeter" seja um termo correto, pois a pessoa o faz por livre e espontânea vontade..

    pra mim, esse tipo de prática é como se as pessoas estivessem atuando numa peça de teatro. e você já reparou como são maravilhosas as transas em que as pessoas atuam, assumem uma personagem? a questão é apenas qual personagem você quer ser, qual personagem você quer que o seu parceiro(a) seja.. o importante é que as pessoas se libertem de si e incorporem aquela personagem, o resto é pouco relevante..

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  3. Normal, nesse caso, me refiro ao que está dentro da normal, do senso-comum. Essa prática, pelo menos dessa maneira, não é comum, não é normal. Eu acho, mas sei lá, né...

    Mas "submeter" não tem um sentido autoritário somente. Uma pessoa que se submete a algo, acata as ordens servil e humildemente de um outro alguém sem contestar. E foi o que me pareceu.
    De fato é como uma encenação, mas é grosseiro e humilhante. Agir completamente como um cachorro e dar prazer assim a uma outra pessoa é estranho demais.

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  4. só pode ser humilhante se você não estiver sentindo prazer com isso..

    no caso, a mulher era uma prostituta e não tava fazendo porque estava gostando.. mas muitas mulheres (e homens) desempenham esse papel pelo próprio prazer, então não é humilhante e tampouco constitue uma submissão (com relação aos demais aspectos fora do ato em si)

    grande parte das pessoas que têm esse tipo de relação sexual, têm também toda a relação amorosa baseado em dominação/submissão.. aí sim eu acho que faz sentido questionar o porquê de a pessoa "se prestar a esse papel"

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  5. Claro que é humilhante. Uma pessoa se submeter, se sujeitar a algo é humilhante. Já ouviu a expressão "se humilha diante de Deus"? A pessoa faz por vontade própria, isso é bom para ela, traz coisas boas, mas é um ato de submissão e humilhação. Tá, as palavras que eu escolhi são ambíguas, mas isso é porque eu acho toda essa encenação horrível.

    Uma coisa é fazer um pequeno fingimento, fantasiar ser alguma coisa outra é pisar, bater, trazer dor, fazer o outro se cachorro... entendo que há quem sinta prazer, mas eu realmente fico chocada com isso. Mas como dizem que a dor e o prazer andam juntos...

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  6. é humilhante apenas durante o ato sexual (até porque, se não o fosse, perderia a maior parte da motivação).. mas antes e depois, isso é entendido pelos parceiros (pelo menos, deveria ser) apenas como a forma que eles encontram de ter prazer (tirando o caso de a relação inteira ser baseada na dominação/submissão, como eu falei)

    quanto à dor, já li sobre estudos científicos que mostram que a dor é, de fato, um estimulante sexual (a dose depende da pessoa, é claro)

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  7. Putz...Será que é tão complicado entender que existem pessoas que adoram ser humilhadas e dominadas durante o sexo,algumas gostam até de sofrer asfixia uai,tem gente que adora apanhar durante o sexo,sentir dor,com velas queimando,facas,e entre outras coisas...Tem gente que sente prazer no ato de ser totalmente dominado e isso é FATO.Ninguém faz coisas assim sem sentir vontade,o se acontecer sem vontade,isso é chamado de abuso,é crime,bem simples uaiii.O problema é que coisas desse tipo são sempre encaradas como nojentas,humilhantes no sentido mal da palavra,não entendo porque diabos isso acontece.

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  8. Sapa, não estou falando que não entendo que uma pessoa sinta prazer com tais atos. Tem que sentir muito prazer com essas coisas, aliás, senão a pessoa não faria nada do tipo. Não estou falando meramente de gosto. Se fosse só isso, eu diria que gosto de maça, você de uva e ninguém discutiria nada, porque é tudo gosto.
    Eu nunca conheci alguém que gostasse de tal situação (não que eu saiba). É no mínimo curioso pensar o porquê de alguns gostarem de práticas tão peculiares, não? O Caio disse aí algo que eu não sabia que tinha unma explicação científica de que a dor está relacionado ao prazer. Isso pode explicar porque uns gostam de sentir dor no ato sexual. Enfim, não estou condenando o gosto de ninguém. Cada um que faça o que bem entender entre quatro paredes, mas não posso deixar de me espantar com algumas coisas que estão distantes do meu mim.

    E bem... certos atos são considerados nojentos e perversões quando não condizem com práticas comuns. O sexo oral já foi encarado assim há uns anos, bem como o anal. Eram perversões nojentas horríveis (e ainda há quem os considere dessa forma). O aceite das pessoas vem com a normalização de certos atos.

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  9. Só um comentário sobre tudo q a Kika falou (preguiça-mor). "mas eu realmente fico chocada com isso" Sade cumpriu sua missão. Não q a missão dele seja só chocar, mas sabemos bem q esse é o caminho escolhido por ele pra expor certas coisas. E não que conhecer discutir e formar opinião sobre fetiches os mais diversos não seja importante, mas acho q deveríamos nos concentrar mais na passagem "Eis como seria preciso tratar todas as mulheres, e se assim o fizessem, elas não seriam tão impertinentes"...

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  10. Ops...alguém falou em Marquês de Sade??

    Hahahaha...sou compelido a comentar mesmo sem ter muito a dizer...rs.

    Algumas vezes a narrativa do Marquês expõe experiências sexuais que estão no limite da percepção, isso por que a busca pelo prazer sexual necessita sempre de estímulos diversos e cada vez mais intensos, então chega-se ao extremo. O Marquês retrata isso muito bem, seu extremismo é delicioso e sua crueldade é louvável e sua rudeza acusadora sempre leva à reflexão à exemplo de uma pedra no sapato que não pode ser ignorada.

    Seu objetivo é sempre o de libertar os seres de suas concepções pré-moldadas, aceitas pela maioria sem reflexão ou discernimento. Então, mesmo quando ele pega pesado e extrapola, indo realmente até a beira da loucura, acho válido.

    Valeu pelo post!
    Se puderem publiquem tb algo do Justine (meu conto preferido).

    Abraços a todos!

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  11. Will, por que você acha que devemos nos concentrar nessa passagem??

    Kika, se o sexo oral já foi condenado, então vale a pena você refletir se todas as coisas que estão distantes do "seu eu" estão, de fato, distantes do seu eu como indivíduo ou se apenas do seu eu como ser social.

    sim, Ozzie, nada do que o Marquês escreve é em vão.

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  12. É, Will, por que se concentrar nessa parte?
    Aliás, essa parte talvez fosse a mais polêmica para quem não conhece Sade. Faz parecer que ele é um mero machista.

    Vale a pena refletir sempre, Caio e isso nunca deixo de fazer. Refletir não é o mesmo que aceitar e ver como normal. É apenas entender e ter consciência de certas coisas.

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  13. Alguns podem dizer q é óbvio. Outros podem discordar. Pra mim é muito claro q Sade não escreve só pra argumentar em favor de sua forma de pensar. Ele escreve também para expor o absurdo de outras formas. Quem conhece Justine sabe do que estou falando. O personagem principal só defende idéias q defintivamente ñ são as de Sade. Mas ele arquiteta tudo pra mostrar o absurdo das idéias defendidas em primeiro plano.

    Ao aproximar uma relação sexual completamente humilhante que seria absurda pra maior parte da população de uma frase machista extremamente comum para a maior parte dos homens E MULHERES da época, ele está dizendo que no fundo é a mesma coisa. Ele quer nos deixar revoltados com a humilhação e depois colocar uma idéia que estamos acostumados a ouvir e que nos parece muito normal.

    Por isso que acho que ler Sade para discutir a sexualidade é ser muito raso. 120 dias tem que ser lido como uma crítica aos abusos do poder. Isso de forma geral. E cada conto tem suas próprias críticas.

    Ele coloca coisas q lhe parecem normais, mas q ele sabe que devem ser chocantes pra mta gente bem ao lado de coisas q ele acha chocantes, mas que parecem normais para a maior parte do povo.

    Pra mim o sexo é menor. Não só em Sade, mas na vida. Devemos discutir o que está no entorno. Acho msm q essa frase ñ foi colocada pra pensarmos que Sade é machista ou pra pensarmos que o personagem era assim. Foi pra termos nojo do machismo.

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  14. Há um tempo atrás, fazendo algum 'dever de casa' pela net, acabei parando num blog que era de sado-maso, com contos, relatos, etc...

    Li um relato em especial que me deixou muito perturbado psicologicamente (e com tesão, devo confessar)porque a coisa da humilhação tinha sido levada pra um nível absurdo. Pelo que eu pude entender, toda a dinâmica do casa se baseava naquilo, não apenas no momento sexual... a relação era full time uma encenação de dominação muito bizarra...

    Lendo esse post e os comentários, me deu vontade de exprimir minha opinião: Não é porque uma coisa começa a se tornar aceitável culturalmente que ela é sadia... o tornar-se popular pode ser um indicativo apenas disso "de que tornou-se popular" mas não agrega em si nenhum valor a coisa, nem bom nem mal. Vejo diariamente coisas que são consideradas absolutamente normais (não sexuais) e que eu considero aberrações de comportamento.

    Eu acho que as últimas gerações têm sofrido um pouco com a falta de referencial: Antigamente vivíamos todo o tipo de repressão... E a sexual era fortíssima também... Agora, em que as pessoas têm muito mais liberdade, mobilidade e facilidade pra fazer qualquer coisa, os limites do que é 'normal' ou sadio deixaram de ser tão claros pra nós. Entorpecidos com esse excesso de liberdade, corremos o risco de dizer sim a absolutamente tudo, com uma inocente autojustificação de que não se está fazendo mal algum...

    Sou um grande defensor da liberdade, mas não acredito que tudo nos seja permitido e cabe a cada um julgar por si.

    Por mim, julgo o seguinte: As pessoas que se deixam navegar por águas muito profundas em relação a sua sexualidade, parecem tender a uma busca sem fim. Essa coisa meio maratonística da nossa sociedade, de fazer cada vez mais vezes, com mais pessoas, em mais posições, etc parece trazer consigo um certo vazio existencial que tem que ser preenchido com mts centímetros de pica e ml de sêmem.

    Aquele que se rende totalmente a uma vida cujo objetivo é a busca incessante por prazer, acaba se tornando escravo desse estilo de vida e fica incapaz de voltar a excitar-se com coisas mais 'bobinhas'.

    Não é muito diferente do uso de drogas, cuja analogia vem em boa hora: O cara que usa uma substancia habitualmente se "acostuma" com um patamar bem elevado de prazer na vida (na night, ou seja lah onde estiver)e com o tempo vai ficando complicado administrar o uso ou eventual abuso daquela substância... e a vida sem ela vai lhe parecer extremamente sem graça, como um papai-e-mamãe seria pra um libertino dos 120 dias...

    Não quero colocar aqui nenhuma bandeira de falso moralismo e nem me opor de nenhuma maneira à noção de liberdade, apenas pontuar que às vezes, determinadas coisas parecem inofensivas mas podem vir a não ser, se sairem do controle.

    Enquanto é brincadeira é divertido, quando vira uma obsessão, um vicio, um fetiche permanente, vejo isso como patológico.

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  15. "Entorpecidos com esse excesso de liberdade, corremos o risco de dizer sim a absolutamente tudo, com uma inocente autojustificação de que não se está fazendo mal algum... Sou um grande defensor da liberdade, mas não acredito que tudo nos seja permitido e cabe a cada um julgar por si."

    Tiago, eu acho que tudo que não faça mal nenhum à ninguém é permitido sim.. por que você acha que não é?

    "As pessoas que se deixam navegar por águas muito profundas em relação a sua sexualidade, parecem tender a uma busca sem fim."

    é claro que quem está sempre interessado em descobrir novas facetas da própria sexualidade está em uma busca sem fim, pois há infinitas formas de sentir prazer. eu acho isso extremamente saudável, e inclusive me considero nessa busca. só acho que há algum problema se essa busca virar uma obsessão, pela razão que você mesmo disse: "Aquele que se rende totalmente a uma vida cujo objetivo é a busca incessante por prazer, acaba se tornando escravo desse estilo de vida e fica incapaz de voltar a excitar-se com coisas mais 'bobinhas'."

    gostei da analogia com as drogas.. muito bem colocada

    "Enquanto é brincadeira é divertido, quando vira uma obsessão, um vicio, um fetiche permanente, vejo isso como patológico."

    concordo com o que você disse com relação a "obsessão", mas não acho que um "fetiche permanente" seja necessariamente uma obsessão, tampouco uma patologia. um "fetiche permanente" pode ser tanto um simples gosto sexual quanto doença, se esse fetiche começar a interferir nas outros campos da vida da pessoa, por exemplo

    agora, só curiosidade.. se não quiser responder, por favor ignore.. você sabe explicar mais ou menos o que te excitou tanto no conto e o porquê de você ter sentido isso?

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  16. Nossa, se continuarmos assim, as coisas vão longe...rs. Mas é legal ver como os textos do marquês são capazes de provocar esses debates e reflexões.

    O Will está certo ao comentar que as obras do Marquês não se limitam somente à sexo, tem que analisar tb o contexto histórico e cultural no qual tudo se encaixa assim como seu conteúdo psicológico.

    Quanto a frase: "Eis como seria preciso tratar todas as mulheres, e se assim o fizessem, elas não seriam tão impertinentes", creio que o Marquês explora a controvérsia e usa palavras fortes para expressar um condição onde o extremo cria uma situação em que as camadas do ego são descartadas, assim como as máscaras sociais e os papeis culturais impostos pela sociedade. Geralmente, nesses casos o que vem a tona são verdades de nossa psique que temos vergonha de assumir, então trata-se do primitivismo puro, da fêmea que se rende a potência do macho dominante (macho que na sociedade primitiva tinha por obrigação cuidar de sua parceira e cria), assim como poderia ser o contrário, poderia ser o macho se redendo aos encantos da rainha fêmea, uma vez que as primeiras sociedades eram matriarcais e os homens eram membros de segunda categoria. Quem nunca sonhou em ser dominado por uma super-gostosa usando corselet de couro e cinta-liga? São instintos herdados de nossos antepassados!

    Tiago, concordo com muitas coisas que vc escreve, mas discordo em alguns pontos. Por exemplo, vc diz: "Agora, em que as pessoas têm muito mais liberdade, mobilidade e facilidade pra fazer qualquer coisa, os limites do que é 'normal' ou sadio deixaram de ser tão claros pra nós. Entorpecidos com esse excesso de liberdade, corremos o risco de dizer sim a absolutamente tudo, com uma inocente autojustificação de que não se está fazendo mal algum."

    É a típica frase usada por quem não conhece nada do mundo antigo, na grécia, pérsia e egito a sexualidade e todas suas formas de expressão (e digo TODAS MESMO!!), eram aceitas como uma condição natural ao ser humano e havia leis que as regulamentavam. As mulheres romanas introduziam serpentes nas suas vaginas, não só para chegar ao orgasmo, mas também para mantê-las frescas durante o verão. Cenas públicas de zoofilia com vacas, lobos, ursos e até crocodilos eram também apreciadas nas arenas durante os jogos romanos. A bisexualidade era tida como algo normal e etc. E apesar de toda essa putaria que aos nossos olhos não passam de bizarrizes repugnantes, a sociedade grega criou os maiores pensadores ocidentais, construiram máquinas à vapor e estavam em dias de fazer uma revolução industrial muito antes do nascimento de cristo. Não eram sociedades decadêntes como nos fazem acreditar os textos judaícos.

    O cristianismo só foi adotado como religião oficial em roma por que o imperador Constantino, temendo outra revolta popular, buscava por dogmas opressores que mantivessem a massa sobre controle, o mesmo ocorreu no oriente com o islamismo e o judaísmo, então veio a forte repressão sexual e intelectual, criou-se uma sociedade aos moldes das colméias de abelha, o pensamento livre foi banido e o mundo entrou em decadência no período conhecido como "idade das trevas".

    Durante o Renascimento voltamos a adotar os ideais da cultura grega, e de lá pra cá temos conquistado aos poucos a mesma liberdade sexual e intelectual que havia naquela época. O problema é que somos o fruto dessa programação religiosa e para nós(diferentemente dos gregos que possuiam cultos hedonistas), é muito difícil aceitar que algumas coisas são normais, quando na verdade são aquilo que temos de mais natural e íntimo.

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  17. quanto a frase "Eis como seria preciso tratar todas as mulheres, e se assim o fizessem, elas não seriam tão impertinentes", discordo tanto do Will quanto do Ozzie.

    primeiro, a personagem que fala não é nenhum dos 4 libertinos, mas um devasso qualquer que se deitou com a Duclos. por esse motivo, não dá pra afirmar que a opinião do cara seja a do Sade (isso seria mais provável se fosse um dos 4 libertinos pois o Sade retrata a própria personalidade mais claramente neles)

    segundo, eu não acho que o Sade condene o machismo, até porque ele prega em 120 dias (e em outros livros) o desrespeito pelas pessoas em geral (desrespeito no sentido de que a "Natureza", isto é, o eu, está em primeiro lugar, no sentido em que não existem barreiras para a satisfação do próprio prazer). ou seja, as mulheres são apenas uma subclasse de todos os possíveis alvos de desprezo e infâmias, então por que não ofendê-las, ridicularizá-las? certamente Sade não achava isso imoral (porra, ele não considerava as piores torturas imorais...), então eu acho que não existe nada nas entrelinhas dessa frase..

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  18. interessante essas paradas sobre essas sociedades antigas..

    você teria livro(s) para recomendar, Ozzie?

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  19. Bom, ñ conheço o bastante de Sade pra ter certeza do que digo, mas acho mesmo que Sade não é só alguém que curte uma repugnância. Ele me parece mais alguém que retira as máscaras e expõe as faces deformadas que todos se recusam a ver. Por isso acho q mesmo não sendo um dos 4 libertinos, o tal do personagem lá era sim uma face da sociedade que Sade optou por retratar.

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  20. Ah. E acho q o q o Thiago falou sobre muitas liberdades as pessoas perdendo o critério era sobre tudo e não só sobre a sexualidade.

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  21. Will, as vezes eu tenho a impressão de que quando vc fala sobre sexualidade, está falando na verdade apenas de sexo. Mas a sexualidade envolve muitas outras coisas, é o mecanismo mais poderoso da natureza, a unica forma dos seres transmitirem sua carga genética e assim, evoluirem a um novo estágio. Em base vc deveria considerar que todas as interações humanas , e todo o desenvolvimento intelectual, artistico e científico está cunhado na sexualidade e na busca pela sobrevivência das espécies em geral. Literalmente, sexo é vida! Não existiria vida sem sexo, não existiria cultura, filosofia, ciência nem mesmo sociedade, sem sexo.

    Então a repressão à sexualidade é a forma mais brutal e covarde de escravizar os seres, é algo que afeta todos os campos do conhecimento humano.

    Eu concordo com o Tiago quando ele diz que a cultura contemporânea está perdendo o critério para lidar com muitas coisas, mas discordo quando ele diz que isso se deve ao fato de estarmos passando por um período de grande liberdade. No meu ponto de vista é justamente o contrário, estamos perdendo o critério ao lidar com o mundo ao redor por que, por trás dessa aparente liberdade, existem corporações que mantém as massas na ignorância, sem instrução, preparo ou cultura. As informações são cambiadas e as pessoas estimuladas a aceitar padrões de pensamento sem refletir ou questionar. Isto não é liberdade, na verdade é uma prisão invisível , a mais cruel forma de escravidão de todas.

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  22. claro que ele "não é só alguém que curte uma repugnância",

    suas obras são imersas em pensamentos filosóficos sobre os principais questionamentos do homem.. a questão é apenas que ele defende o tempo inteiro nas suas obras a perversão e a perversidade.. não faz sentido um cara que baseia sua filosofia no "egoísmo" ao extremo, na "falta de respeito" pelos outros seres humanos, querer desmascarar o machismo.. e isso não está presente só nas obras dele, durante a vida ele abusou sexualmente de várias mulheres e envenenou um grupo de prostitutas.. veja em http://en.wikipedia.org/wiki/Marquis_de_Sade

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  23. Ozzie, você não quer explicar melhor o que você quis dizer com "não existiria cultura, filosofia, ciência nem mesmo sociedade, sem sexo.

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  24. Blz. Devo ter interpretado mal a intenção do Sade. Ainda assim, me parece mais digno discutir a lógica explicitada na fala e escancarada no fetiche do q o fetiche em si.

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  25. Bem Caio, biologicamente é simples assim: se os seres não pudessem se reproduzir a vida como a conhecemos não existiria, haveria somente alguns poucos organismos capazes de se reproduzir assexuadamente. Porém não é o caso, e felizmente, somente através da combinação de genes é que temos a chance de "evoluirmos" para uma criatura melhor adaptada ao meio em que estamos inseridos. Ou seja, sem sexo, nós seres humanos e todos os outros organismos da natureza, aves, peixes e plantas, ainda seríamos meros organismos unicelulares.

    O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, classificava o impulso sexual como sendo a força primária que move os mares do insconciente e o subconsciente. Ele acreditava que nosso cérebro só se desenvolveu da forma que foi, por que, de certo modo, criamos formas e artifícios para lidar com a questão do sexo e da busca pela sobrevivência que os outros animais da natureza desconhecem. Por exemplo, possivelmente o primeiro primata a oferecer flores para sua parceira foi um macho com poucos atributos físicos que precisava encontrar formas de galanteio mais sofisticadas do que exibir seus musculos. Como todo animal o seu impulso era o de transmitir sua carga genética e, como sua estratégia deu certo, seus decendentes eram os seres que carregavam essa informação de que era preciso ser cada vez mais astuto e inteligente ao criar artifícios para a sedução. Desde tipo de pensamento é que teriam surgido o desenvolvimento intelectual, as artes como música e pintura, a ciência e a filosofia. Por isso a sexualidade é algo que engloba todos os campos do conhecimento humano.

    Os conceitos de Schopenhauer são complexos e cheios de sutilezas, as quais ficam difícil explicar com exatidão aqui, por isso vale a pena dar uma lida em algum de seus livros. Tudo que posso dizer é que ele influênciou outros pensadores importantes como Niestzche, por exemplo. E até mesmo Freud parece ter chegado a mesma conclusão de Schopenhauer, quando afirmou em seus estudos de psicanálise, que todas as interações humanas, com suas neuroses patológicas, tinham como origem as forças sexuais primárias e inconscientes.

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  26. Bem Caio, quanto ao Marquês, não creio que ele tenha sido "perverso" no sentido perjorativo da palavra (se é que existe um sentido positivo para isso...rs).

    Na minha opinião ele foi um primitivista. Nunca um moralista, nem por isso imoral, mas amoral, pois julgava que a moralidade era apenas um artíficio desenvolvido para assegurar a boa convivência dos seres em uma sociedade, porém essa moralidade muitas vezes ia contra os instintos mais autênticos dos seres, portanto deveria se descartada.

    Muito antes de aparecer um Aleister Crowley, o Marquês já era um homem que pregava: "Faça o que tu queres; esse há de ser o todo da minha lei!"

    Então, as coisas que ele fez na vida, mesmo as vezes sendo exemplos negativos, eram parte da visão de um homem que via o mundo a sua volta como uma selva, pura e simplesmente...selva onde era preciso sobreviver, ser um predador e por vezes servir de caça (e ele se fodeu muitas vezes tb), um mundo em que era muito mais válido saciar seus desejos e impulsos do que simplesmente esperar pela morte como um cidadão frustado em meio a uma sociedade de aparências.

    Tabém discordo quando diz que ele foi machista, pois no conto "filosofia na Alcova" a personagem da Madame inspira a mesma autoridade, força e respeito que ele julgava necessárias a um libertino.

    O que acredito sim, é que ele classificava os seres com base nas convicções individuais de cada um, assim, um homem ou mulher que compartilhasse de seus ideais primitivistas, eram igualmente dignos de respeito, pois eram predadores. Já os outros, automaticamente se colocavam na condição de presa, pois não direcionavam seus esforços em busca do poder e da liberdade, e preferiam servir as leis do estado e da religião, eram não só inferiores como deveriam ser vitimados e humilhados.

    Não que eu concorde com tudo que o marquês fez durante sua vida, mas entendo seu ponto de vista e sincronizo com seus ideais. Porém, esse é apenas meu ponto de vista com relação a esse personagem histórico controverso e fascinante que foi o marquês de Sade.

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  27. fiquei impressionado pela sua explicação sobre o papel do sexo na construção do conhecimento humano.. você tem uma puta conhecimento geral!

    você tem razão, eu me expressei mal.. o que eu quis dizer com "ele defende o tempo inteiro nas suas obras a perversão e a perversidade" não é que ele acha isso o correto, mas que ele defende isso no sentido que é a favor da "liberdade" de quem quer ser perverso e de quem quer ser pervertido, como na frase citada por você "Faça o que tu queres; esse há de ser o todo da minha lei!"

    eu não disse que ela era machista; só disse que não fazia sentido a hipótese do Will de ele "querer desmascarar o machismo"

    "O que acredito sim, é que ele classificava os seres com base nas convicções individuais de cada um, assim, um homem ou mulher que compartilhasse de seus ideais primitivistas, eram igualmente dignos de respeito, pois eram predadores. Já os outros, automaticamente se colocavam na condição de presa, pois não direcionavam seus esforços em busca do poder e da liberdade, e preferiam servir as leis do estado e da religião, eram não só inferiores como deveriam ser vitimados e humilhados."

    faz bastante sentido isso que você disse. mas será que Sade realmente pensava assim? se sim, então ele fazia julgamentos errôneos a todo tempo, pois o fato de alguém seguir as leis que regem a sociedade não significa que essa pessoa não seja primitivista (pra ela, a liberdade pode ser exatamente isso, ela pode acreditar de fato nos ideais principais da massa). me parece que as potenciais vítimas de Sade não eram escolhidas por serem não-primitivistas; mas, por outro lado, os primitivistas com desejos e atitudes parecidas à dele, esses sim eram poupados por ele.

    e a busca do poder, você quis dizer que ela faz parte do ideal primitivista? não entendi bem o porquê.

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