sábado, 6 de março de 2010

"a narrativa mais impura já escrita" #1

venho aqui lhes apresentar "a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe", descrição essa feita pelo próprio autor do relato e que não pode ser desprezada, uma vez que esse homem já foi dito ser "a alma mais livre que já existiu" pelos surrealistas. hoje e nos próximos sábados, publicarei contos extremamente pervertidos do livro Os 120 Dias de Sodoma ou A Escola da Libertinagem, de Marquês de Sade.


bem, antes de partir para a sacanagem, é necessário que eu lhes apresente o roteiro (e os previna dos horrores que os esperam).


o livro conta a história de quatro libertinos (Curval, Durcet, Blangis e o Bispo) que decidem trancafiar-se num castelo durante 120 dias para praticar todos os excessos libertinos que as suas mentes conseguirem realizar. para tanto, formam uma comitiva de 46 pessoas, distribuída em 8 categorias distintas, das quais 7 pertencem à categoria de súditos. na classe dos senhores estão os 4 libertinos. nas demais, 8 meninos, 8 meninas (todos os 16, tendo 11 e 13 anos, foram raptados de suas famílias), 8 fodedores, 4 criadas, 6 cozinheiras, 4 esposas e, finalmente, 4 narradoras (as quais narram 600 paixões durante os 4 meses, ou seja, 5 por dia).

está se perguntando o porquê de tantos números? eles são importantes no livro, eis uma idéia: "por certo, a quantidade evoca a abundância, o luxo, o poder e outras figuras da riqueza sem as quais esses personagens nem ao menos poderia imaginar as extravagâncias de luxúria a que se abandonam diariamente".

o que mostrarei aqui são alguns dos contos dentre as 600 paixões descritas pelas narradoras, as quais são divididas em 4 ciclos: o das paixões simples, o das complexas, o das criminosas e o das assassinas. 120 Dias é um rascunho, pois Sade não pôde concluí-lo uma vez que o perdeu ao ser expulso às pressas da Bastilha durante a Revolução Francesa; desse modo, infelizmente, somente são narrados os contos do ciclo das paixões simples (os demais são listados e enumerados com a sua idéia principal, mas sem historinha). a minha idéia, portanto, é apresentar somente as paixões do primeiro ciclo (o que faz o conteúdo ficar infinitamente menos hardcore - é fácil de ver isso pelos nomes dos ciclos das paixões), embora considere a possibilidade de postar itens das listas das demais paixões em futuras postagens (para lhes dar uma idéia do quão sádico o Sade pode ser).

antes de começar, vale a pena conferir um trecho do livro que fala do porquê que o leitor não deve repudiar o autor, o qual postei na minha apresentação, e uma breve explicação da filosofia que embasa a libertinagem de Sade, que está no post a filosofia da libertinagem.

vamos aos trabalhos. mas antes, um aviso:

O CONTEÚDO A SEGUIR, ASSIM COMO O QUE VIRÁ NOS PRÓXIMOS POSTS, PODE CONTER (E PROVAVELMENTE CONTERÁ) ELEMENTOS DE CARÁTER IMORAL E/OU REPUGNANTE.


começo pelo começo, isto é, pelo primeiro conto do livro:

"Um dia em que voltava de minhas santas ocupações, minha irmã me perguntou se já tinha encontrado Padre Laurent. 'Não', lhe disse. 'Ora', me respondeu, 'ele te observa, eu sei; quer te mostrar o que já me revelou. Não fujas, olhe bem para ele sem te apavorar; ele não te tocará, mas te mostrará algo muito engraçado, e, se deixares, ele te recompensará bem. Aqui, nos arredores, a mais de quinze de nós ele fez ver do mesmo jeito. É o seu prazer e a todas nos deu algum presente.' Vós bem imaginais, senhores, que era a deixa não apenas para que eu não evitasse o Padre Laurent, como também para que o procurasse. O pudor fala muito baixo na idade que eu tinha (5 anos), e não seria este silêncio, quando saímos das mãos da natureza, uma prova de que esse sentimento artificial se deve muito menos a esta primeira mãe do que à educação? Fui correndo para a igreja e, enquanto atravessava um pequeno pátio situado entre a entrada da igreja ao lado do convento e o convento, dei de cara com o Padre Laurent. Era um religioso de aproximadamente quarenta anos com uma linda fisionomia. Ele me parou: 'Aonde vais, Françon?', perguntou-me. 'Arrumar umas cadeiras, Padre'. 'Bem, bem, tua mãe as arrumará. Venha, venha para esse gabinente', me disse arrastando-me para um cômodo que ali se encontrava, 'vou te mostrar algo que nunca viu'. Segui-o, ele fechou a porta atrás de nós, e colocando-me bem à sua frente: 'Olhe, Françon', me disse retirando de seus calções um pau tão monstruoso que pensei que fosse desmaiar de pavor, 'Olhe, minha pequena', continuava ele, batendo punheta, 'já viste algo semelhante...? Chamam isto de pau, minha pequena, sim, de pau... Isto serve para foder, e o que vais ver, o que vai jorrar daqui a pouco, é a semente que te deu origem. Eu o mostrei à tua irmã, e mostro-o a todas as mocinhas de tua idade; traga-me mais, traga-me outras, faça como tua irmã que me apresentou mais de vinte... Eu lhes mostrarei meu pau e farei jorrar minha porra em seu rosto... É minha paixão, minha pequena, não tenho outra... E vais ver'. Imediatamente senti-me coberta por um orvalho branco que me deixou toda manchada. Algumas gotas até entraram em meus olhos porque minha pequena cabeça encontrava-se exatamente à altura dos botões de seus calções. Enquanto isso, Laurent gesticulava. 'Ah! que bela porra... que bela porra estou perdendo', gritava; 'ela te cobriu inteirinha!' E, acalmando-se aos poucos, guardou tranquilamente a ferramenta no lugar e saiu às pressas, não sem antes enfiar doze soldos na minha mão e recomendar-me que lhe trouxesse minha amiguinhas."

e o outro conto de hoje é:

" 'Um velho escrivão do parlamento', disse ela, 'veio me visitar uma manhã, e como já estava acostumado, desde o tempo da Fournier, a lidar apenas comigo, não quis mudar o seu método. Tratava-se, enquanto o masturbava, de esbofeteá-lo gradualmente, isto é, primeiro sem muita força, e cada vez mais forte, à medida que seu pau ficava mais consistente, e finalmente com toda a força quando ele esporrava. Eu dominava tão bem a mania daquele personagem, que na vigésima bofetada eu fazia sua porrar jorrar'."

12 comentários:

  1. A parte destacada no primeiro conto é simplesmente linda.

    ResponderExcluir
  2. infelizmente, a filosofia não está muito presente nesse livro.. mas existem inúmeros lampejos filosóficos, como esse, apesar de eles, em geral, não estarem nos contos, mas na maioria das vezes nas discussões que os libertinos têm enquanto fazem orgias.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Não tem nada de lindo nisso, mas tudo bem. O melhor de Sade não está nas perversões e nem no sadismo.

    ResponderExcluir
  5. o que é o melhor de Sade pra você, Kika?

    já leu o que dele?

    ResponderExcluir
  6. pra mim, o melhor é a filosofia dele.. e, como eu falei, esse livro não abarca muito ela

    ResponderExcluir
  7. Já li alguns contos dele, mas não muitos. Gostei mesmo foi de ler "Os crimes do amor", de Sade porque sai um pouco da ideia de que ele só falava de coisas altamente imorais. É um livro que fala sobre o amor e mais do que isso, tem umas divagações dele à respeito do que é o romance e uns devaneios. Sei lá... eu achei interessante justamente porque não é uma obra tão típica de Sade.
    Mas voltando à sua pergunta, o melhor de Sade para mim é o choque que provoca a leitura das obras dele. A forma como escreve os atos, os personagens... e isso tudo sendo atemporal, escandalizava antes e continua escandalizando. Aos mais desavisados, não parece nada lierário os termos utilizados por ele. Leio hoje autores que parecem que beberam de Sade antes de escrever. Ainda bem! Os livros mais chatos que falam de sexo são justamente os que não tratam diretamente do assunto e sempre há uma fuga pela tangente, como "Lolita". Ah, essa é uma mera opinião minha essa. Muitos não concordariam comigo.

    ResponderExcluir
  8. não tinha pensado sobre isso mas, de fato, o escândalo é uma das melhores coisas dele..

    algo muito interessante também é como ele descreve as maiores podridões do ser humano como algo extremamente natural (e moral).

    ResponderExcluir
  9. e, Kika, você não acha mesmo a frase em destaque interessante?

    ResponderExcluir
  10. Eu diria que ele não considerava o que escrevia como podridões. Ele só mostra o que a hipocrisia e o falso moralismo tentam ocultar. Acho que é por isso que choca tanto. Nada como jogar na cara do outro a verdade nua e crua por mais aterrorizante que possa ser. A primeira reação comum seria: "eu não sou assim" ou "esse cara é um louco". Interessante é que muito das loucuras sádicas dele são tão reais e comuns...

    ResponderExcluir
  11. Quanto a frase, eu não acho interessante, pois não concordo, mas ach digna de ser pensada.

    ResponderExcluir
  12. sim, claro, ele não pensava que eram podridões.. só usei o termo como é utilizado coloquialmente por nós

    ler Sade é dar a cara à tapa, e eu adoro fazer isso (se me permitem o jogo de sentidos com o segundo conto).. é a melhor forma de confrontar-se com a realidade humana e, por conseguinte, consigo próprio.

    pois é, o que penso dessa frase varia de acordo com o humor, mas acho que a expressão "muito menos" a torna bem razoável

    ResponderExcluir