quinta-feira, 18 de março de 2010

como o Acaso afeta as nossas vidas?

você acreditaria se lhe dissessem que compreender o significado de um teorema de matemática pode lhe causar profundas reflexões sobre a sua própria vida, as quais podem implicar mudanças na sua visão do mundo à sua volta, e na maneira com que interage com ele?

pois é exatamente o que lhe digo a respeito de um resultado matemático, mais especificamente da Teoria das Probabilidades (que eu vi numa aula na semana passada), cuja aplicação filosófica prática, ao meu ver, é particulamente clara para responder a seguinte pergunta: como o Acaso influencia as nossas vidas?

obviamente, não vou enunciar matematicamente o teorema, mas lançarei mão de uma metáfora que explicita perfeitamente o seu significado.

pegue um macaco e tranque-o para todo o sempre numa sala vazia, que tenha apenas um computador com o Word aberto. precisamos de 3 hipóteses: o macaco é imortal; como ele não tem nada pra fazer, ele ficará apertando os botões do teclado aleatoriamente para sempre; finalmente, ele nunca apertará alt+F4 (isto é, não fechará a janela do Word), nem alt+Tab (não mudará de janela), nem desligará o computador, enfim, não fará nada que o tire da tela de digitar o texto.

agora pense num número natural N (isto é, 1, 2, 3, 4, ..., 6.596, ...), tão grande quanto você queira. digamos, por exemplo, N=1.000.000 (1 milhão).

o que o teorema diz é que se o macaco ficar trancafiado para sempre, então o "seu texto" (isto é, a sequência infinita de caracteres oriunda do seu pressionar aleatório de teclas) conterá a obra completa de Shakespeare (isto é, a sequência finita de caracteres de todos os seus livros e manuscritos ordenados segundo algum critério) N (ou seja, 1 milhão) de vezes consecutivas (isto é, a sequência de caracteres perfeita referente à obra completa se repetirá 1 milhão de vezes sem nenhum caractere "indesejado" entre as sequências) com probabilidade de 100% (o que quer dizer com certeza absoluta).

como a nossa noção de infinito é muito limitada, vou explicar o que quer dizer probabilidade de 100% caso ele fique pra sempre. vamos então tentar entender essas probabilidades em um tempo finito. como estamos lidando com probabilidades (e não com certezas), vamos escolher uma margem de erro da probabilidade de o evento A (que é o texto conter a obra completa 1 milhão de vezes seguidas) ocorrer. tomemos a margem tão pequena quanto a gente queira, por exemplo, de 0,001%. então o teorema afirma o seguinte: podemos calcular um número de anos M que, caso deixemos o macaco lá por M anos e voltemos para buscá-lo, então ele terá escrito a obra completa de Shakespeare completa 1 milhão de vezes consecutivas com 99,999% de certeza (isto é, 100% menos a margem de erro, a qual nós mesmo definimos).

ou seja, aquela coisa mais improvável, mais bizarra, acontecerá com quase toda a certeza se você esperar tempo suficiente.

espero que eu tenha me explicado de forma suficientemente simples e interessante a você leitor ter chegado a esse ponto de texto. qual a(s) moral(is) da história? vamos chegar lá, com calma.

se o Universo é determinístico (ou seja, se tudo "está escrito") ou não, isso é pergunta sem resposta. Kant, por exemplo, assumia não ser capaz de responder a essa pergunta, mas optou por assumir como axioma (isto é, uma verdade na qual se acredita sem poder se ter certeza de sua validade) que ele é não-determinístico. aqui não importa se ele o seja ou não; o relevante é que, aos nossos olhos e à nossa inteligência, o Universo é governado pelo Acaso.

uma primeira (e óbvia) conclusão do teorema seria que não podemos ter controle sob os acontecimentos da nossa vida, uma vez que estamos sujeitos à influência de infinitos fatores aleatórios. isso quer dizer que não importa se você fizer tudo pra evitar o acontecimento X ou fazer de tudo para que ele aconteça, ele (a não ser que você o impossibilite de acontecer ou garanta de alguma forma que ele acontecerá) continuará tendo alguma chance de acontecer ou não. portanto, você pode (e deve) fazer de tudo para aumentar ao máximo a chance de as coisas que você quer (respectivamente, as coisas que você não quer) acontecerem (respectivamente, não acontecerem), mas deve "lavar as mãos" se elas não acontecerem (respectivamente, acontecerem), uma vez que você fez o que estava ao seu alcance (não adianta chorar sob o leite derramado, adianta?).

a "felicidade" então, ao meu ver, seria uma reformulação do que geralmente entendemos por carpe diem.

felicidade (ou carpe diem): aproveitar ao máximo tudo o que está acontecendo de bom nesse momento, ignorar tanto quanto possível tudo de ruim que está acontecendo nesse instante, e, ao mesmo tempo, maximizar (respectivamente minimizar), a curto, médio e longo prazo, de acordo com as suas prioridades, a probabilidade de tudo o que você quer ocorra (respectivamente, de tudo o que você não quer não ocorra).

só pra voltar um pouco mais pra realidade: existem inúmeros casos de pessoas de sucesso que falharam MUITO antes de "se darem bem". por exemplo, existe um best-seller americano (de quem não me lembro o nome) que escreveu mais de 100 livros até que conseguisse publicar o primeiro. o ator Bruce Willis foi rejeitado como ator inúmeras vezes até que, por um golpe do Acaso, viajou para a Califórnia e lá foi "descoberto" por um diretor. enfim, o que esses caras fizeram foi tentar, tentar, tentar, tentar, tentar.. isto é, maximizar a sua probabilidade de dar certo: dessa maneira, com uma pequena ajuda do Acaso, nós podemos alcançar os nossos objetivos!

eu poderia abordar infinitas questões sob essa ótica, como por exemplo "a felicidade é a travessia?" (tratada pelo Will em Libertar-se) ou "os fins justificam os meios", mas não existem respostas precisas e cada argumento pode ter muitas minúcias, então deixo para você refletir. ademais, não quero pecar mais pelo excesso que já fiz.

caso se interesse pelo assunto, recomendo a leitura de O Homem Dos Dados, de Luke Rhinehart, e de O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow. veja também o meu post sobre O Homem Dos Dados e algumas outras reflexões sobre o assunto. ainda relacionado a tudo isso, recomendo que leia Escolhas? e Punição do ótimo blog Controle Remoto.

sou tão apaixonado pelo assunto, que continuarei os meus estudos e a minha profissão nas áreas de Probabilidade e Estatística, com aplicações em Economia, Ciências Sociais, Filosofia, Psicologia, etc. saiu outro dia na SuperInteressante uma matéria explicando porque a Estatística é considerada a profissão do futuro: basicamente, como estamos na Era da Informação e envoltos em todos esses milhões de terabytes em dados, são necessárias pessoas que sejam capazes de extrair significado desses dados, ou seja, gerar informação a partir deles, em todos os campos de conhecimento. a reportagem afirma ainda que a maioria dos grandes pensadores do futuro serão estatísticos, pois boa parte das últimas grandes descobertas da Biologia (especialmente da Genética), da Medicina, das Ciências Sociais, da Economia, da Filosofia, etc., são oriundas da análise estatística de um volume imenso de dados.

11 comentários:

  1. Preciso d um porre agora.

    Já tinha ouvido coisa parecida. Na verdade era "se colocarmos 100 macacos numa sala com máquinas de escrever, mais cedo ou mais tarde (imagino que seja mais tarde) teremos a bíblia". Me parece meio desesperador pensar q o destino ñ depende de mim, mas concordo com toda essa budega aí (se é q eu entendi), principalmente com a parte q diz q devemos tentar maximizar a probabilidade do q queremos acontecer e minimizar a do q ñ queremos acontecer.

    Só mais uma ilustração...
    "O autor de legal-triller John Grisham vendeu mais de 200 milhões de livros em trinta línguas em todo o mundo. Mas seu primeiro romance foi rejeitado por vinte e oito agentes e editores. Quando um editor finalmente aceitou, só cinco mil cópias foram impressas, das quais mil o próprio Grisham comprou. Ele vendeu esses volumes para donos de livrarias para divulgar seu trabalho. Com seu segundo romance, A Firma, ele se tornou o autor mais vendido, e o resto é literalmente história."

    Nas palavras de Robert Half, “Persistência é o que torna o impossível possível, o possível provável e o provável definitivo.” É só persistir por tempo o bastante.

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  2. Fascinante essa explicação sobre probabilidade. E mais impressionante ainda é que de um assunto aparentemente nada a ver conseguiu chegar num assunto tão pertinente a todos. Muito bom!

    Então esse acaso não é tão casual assim? Porque o que é acaso é algo totalmente imprevisível ou acidental. Se se tenta, persiste, está dominuindo as chances da casualidade e aumentando a probabilidade de que algo dê certo?

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  3. Adorei seu texto!
    Reflexão na certa!
    =)

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  4. Kika, acho que entendi a sua dúvida, e acho que tem a ver com o seu conceito de acaso.

    você pode dar diversas definições para acaso, mas aqui eu entendo o Acaso como, digamos, o conjunto de todos os fatores que influenciam de alguma forma as nossas vidas.

    existem infinitos desses fatores que a gente não faz idéia o que sejam, mas existem alguns, pouquíssimos, sobre os quais temos conhecimento. dentro desse pequeno grupo, grande parte nós não temos controle sobre. desses que sobram, aí sim podemos agir de forma a moldá-los para que eles possam vir a contribuir para que a gente obtenha sucesso em algum objetivo nosso. ou seja, nós podemos maximizar (ou minimizar) probabilidades de coisas acontecerem trabalhando em cima desses fatores. foi isso que John Grisham, do exemplo do Will, fez. existem inúmeros casos de pessoas (ou produtos) que fizeram um sucesso absurdo mesmo não sendo nada fenomeal, mas simplesmente porque estiveram no lugar certo na hora certa. e, quanto mais "lugares você for", maiores suas chances de tirar a "sorte" grande.

    quanto à minimização da probabilidade de coisas ruins aconteceram, tem uma frase da qual eu gosto muito "não se pode dar sorte para o azar"

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  5. aliás, Kika, qual a sua idéia do acaso que motivou essa dúvida?

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  6. Imagina só alguém que nunca teve pretensão de fazer alguma coisa e de repente tem a sorte grande virada para o seu lado. Há tantas mdoelos, como a Frenanda Lima, que foram descobertas casualmente enquanto andavam em lugares que não seriam propensos para que a sorte lhes chegasse mais depressa.
    Estava pensando em acaso como sendo algo totalmente acidental que muda o rumo de uma vida drasticamente. Quando se projeta algo para que dê certo, não parece muito fruto do acaso, mas sim da sorte e sobretudo do trabalho duro. Sendo assim, isso não seria acidental.
    Por exemplo, alguém que joga muito na loteria e um dia ganha, esse fato não é acidental, não é casual porque ela fez de tudo para que isso acontecesse.

    Mas eu entendi o que você quis dizer, Caio. Se uma pessoa age de uma certa maneira, pode estar desencadeando um evento novo na vida ou não. No final, todas as ações juntas é que determinariam um caminho que ela seguiria.

    Confesso que me perdi no início do seu post quando começou falando de número e de infinito.

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  7. Só uma dica!
    Diminua o uso de parenteses no meio das frases, isto acaba, as vezes, quebrando a ideia proposta no momento

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  8. não entendi. explica de novo?

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  9. também não acho legal usar parênteses, só o fiz para tentar ser o mais claro possível..

    a outra opção seria repetir a mesma frase com outras palavras.. preferi fazer assim

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  10. eu fui tão claro quanto eu pude na explicação, mas é esperado que muita gente não entenda direito porque nunca estudaram as idéias de infinito e de probabilidade.. e não são coisas simples não

    pra eu explicar melhor que isso, só se fosse num papo ao vivo mesmo.. marquem uma cerveja aí que a gente discute

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